Não é novidade para ninguém que os governos tucanos que se sucedem no Estado de São Paulo há anos têm como uma de suas características principais o descaso total e absoluto com a educação.As últimas pesquisas comprovam essa cruel realidade, ficou claro que São Paulo está deixando a desejar e sua média de rendimento escolar está muito abaixo de estados mais pobres como Pernambuco e Acre. É de se espantar que o estado mais importante economicamente do país seja de fato um dos piores em educação.
E para contribuir ainda mais para o lamaçal da educação paulista, as últimas medidas tomadas pelo governador e sua saudosa secretária de educação tem piorado essa situação. Trata-se principalmente da famosa “Avaliação de desempenho”, que pretende pagar os salários dos professores de acordo com seu suposto “desempenho” em sala de aula.
À primeira vista, quem vê o nome dessa lei acha que é uma coisa ótima. Com a fama de vagabundos e incapazes que os professores tem, qualquer um acharia bom pagar os seus salários de acordo com o seu desempenho. Mas a questão é que essa medida está longe de garantir isso e, pelo contrário, irá fatalmente gerar mais vagabundagem e descaso, aliás, já está gerando.
A idéia do governo é pagar os salários dos professores de acordo com o seu desempenho em sala de aula e o rendimento da escola. Para a avaliar o desempenho do professor, será analisada a quantidade de projetos pedagógicos desenvolvidos e também um questionário sobre a atuação do professor que será respondido pelos alunos. O professor que for bem avaliado pelos alunos nesse questionário manterá o seu salário, mas se acontecer o contrário e não for bem avaliado seu salário será reduzido! Acredito mesmo que os professores devem ser avaliados pois existem muitos incompetentes na ativa, mas jogar essa responsabilidade nas mãos dos alunos é mais do que um descaso, é um desrespeito! O resultado disso é que os alunos que não gostarem do professor terão agora a oportunidade de se organizarem e juntos dar um golpe em seu salário! É o cúmulo do absurdo! Imaginem só o que vai acontecer quando os alunos souberem disso!
O que me deixa mais preocupado é que, em todas as salas de aulas nas quais entrei, a maior parte dos alunos (não todos, mas a maioria) gosta mais dos professores que não trabalham, ou seja, dos que são “legais” e não passam lição, não exigem trabalhos. Portanto, para que os alunos avaliem positivamente o professor ele será obrigado financeiramente a ser “legal” dentro dos padrões adolescentes, ou seja, ser vagabundo e, acredito, agir dessa maneira leva a algo bem distante de ser um bom professor.
Para avaliar o desempenho da escola serão usados diversos critérios. Entre esses critérios está o número de faltas de todos os funcionários, a nota do SARESP (que é uma avaliação que os alunos de oitava série e terceiro ano do ensino médio fazem), a quantidade de água e luz gasta pelas escolas, quantidade de projetos interdisciplinares, entre outros. Um deles, talvez o principal, será o número de alunos reprovados, quanto mais alunos a escola reprova, menor será o salário de todos, desde o diretor até a merendeira.
Poderia estender o assunto e discutir especificamente cada uma dessas medidas - como por exemplo a que pretende vincular o salário do professor à frequencia de TODOS os funcionários da escola, o que certamente levará as pessoas a tomarem conta da vida uma das outras e criará um ambiente de trabalho insuportável - mas prefiro, por hora, me deter apenas nessa última medida que citei, a que trata da reprovação dos alunos.
Como todos sabem, vigora em nossas escolas um sistema de educação continuada onde o aluno não é avaliado de verdade, pois ele deve ser promovido continuadamente, para poupar gastos para o Estado e liberar vagas nas escolas. O aluno só pode ser retido em casos extremos, como absoluta falta de freqüência, e somente nos finais dos ciclos escolares, ou seja, na oitava série e terceiro ano do ensino médio. Contudo, com as novas medidas, o governo pretende eliminar até mesmo essas reprovações mínimas que acontecem nos finais de ciclos, pois também vai vincular o número de alunos reprovados pela escola ao salário do professor e diretor. Pasmem! Os diretores e professores que quiserem pagar suas contas em dia deverão aprovar todos os alunos, do contrário seu salário, que já é dos piores, será ainda mais reduzido!
Os resultados dessas medidas, que já estão vigorando, são claros. Eu, particularmente, pude observar na prática. No final do ano passado, durante o conselho de classe, aconteceram brigas e discussões tremendas entre professores e diretores onde, uns ressaltavam a necessidade de reprovar os alunos que não obtiveram o mínimo rendimento mesmo que isso custasse reduções no seu ganho, e outros que defendiam a necessidade de se ganhar dinheiro para sobreviver e por isso não podiam reprovar alunos. Chegaram a falar de problemas pessoais, como gastos com filhos, convênios médicos, etc, e com toda razão. Resultado: decidiram por não reprovar ninguém para poderem continuar vivendo e dar de comer as suas famílias.
Diante do exposto, pergunto: Que “avaliação de desempenho” é essa que o governo do Estado quer fazer? Como pode ser possível uma coisa dessas?
Até que ponto o governo chegou para poupar gastos e culpar os professores pelo fracasso escolar! Assusta-me muito o fato de não vermos nada sobre isso na mídia, nenhuma crítica, nenhum comentário. Tudo isso por conta do bendito nome das novas regras, “Avaliação de desempenho”. De fato a maioria dos brasileiros que só lêem o título das notícias nos jornais, ao verem uma lei com um nome desse acredita mesmo que o governo está pagando os salários de acordo com o merecimento de cada um, o que nem de longe corresponde com a realidade caótica das escolas do Estado de São Paulo.