Todos nós sabemos quais são os problemas do Brasil, ou pelo menos podemos apontar muitos deles. A corrupção que se espalha por todos os setores da sociedade, a violência generalizada, recordes mundiais de acidentes de trânsito, desmatamento da Mata Atlântica e da Amazônia, sistema de saúde falido, sistema judiciário que não funciona, a educação em colapso, surgem cada vez mais impostos e os que já existem ficam cada vez mais altos, a aposentadoria gradualmente se tornando algo impossível, fome, miséria, falta de identidade do brasileiro, descompromisso, descaso, etc.É muito fácil enumerá-los, mais fácil ainda é criticar tudo e encontrar pessoas para imputar a culpa, quer seja isso respaldado por provas ou não. A população se acostumou a ser indiferente à política, mesmo sendo obrigada a votar, e dizer que “todo político é corrupto” virou pré-requisito para ser considerado como normal pela sociedade. Ao mesmo tempo, temos uma imprensa que em prol de uma tal “liberdade de imprensa” que somente a própria imprensa sabe definir os limites (se é que existem) promove semanalmente escândalos nacionais para obter lucro, quer desestabilize o país inteiro com isso ou não, quer suas denúncias sejam fundamentadas ou não. Ora, o brasileiro já se convenceu que todo político é corrupto, para que ter provas para denunciar? Basta escolher um nome, criar um caso e pronto! Todos irão acreditar e os milhões com a venda das revistas já estarão garantidos.
E o pior de tudo é que todo esse lamaçal acaba sendo dirigido no sentido de favorecer interesses de grupos que se alternam no poder e que, assim como o próprio brasileiro, não está nem aí para o Brasil. A grande questão que se levanta é saber até onde vai tudo isso. Onde vamos parar?
De fato, é difícil imaginar os limites do drama do Brasil, um drama de corrupção, fétido, asqueroso, que se contorce como um verme sem parar e que, a cada movimento faz surgir inúmeros outros vermes.
Tudo está errado, então o que fazer?
Platão, grande pensador grego do século V a. C., discípulo de Sócrates, sabia o que fazer, e fez. Em sua inigualável obra, A República, Platão discute a questão da justiça e a defende perante a injustiça, tida por muitos como mais vantajosa. Idealiza um estado perfeito, onde todos cumprem sua tarefa, e onde o principal ponto de partida da sociedade é a educação. A educação garante tudo, é a partir dela, e somente através dela, que pode surgir um estado perfeito, onde todos são felizes e a justiça impera. A atualidade da obra é inacreditável, e é fantástico perceber que os problemas sociais encontrados em Atenas durante antiguidade clássica correspondem em detalhes aos que encontramos hoje em nosso mundo.
Segundo Platão, a educação é o principal pilar de sustentação da sociedade, e é através deste que se pode garantir a sociedade justa. Essa educação se dá através da música e da ginástica e a partir daí se expande para a vida de forma holística. Através da música o sujeito aprende a harmonia de viver em conjunto, e a ginástica ensina a cuidar de si e do próprio corpo.
Platão considera que a música, através de suas notas, é uma arma perfeita para subverter o indivíduo e levá-lo a questionar a moral e os bons costumes, por isso, afirma que é extremamente necessário para o Estado controlar (sim, através da censura!) a música e até mesmo as melodias e notas musicais que são utilizadas. Afirma que isso é uma troca justa, pois trata-se de garantir o bem estar geral de todos na sociedade.
Defende também que os governantes não sejam eleitos democraticamente, e sim escolhidos por mérito pessoal. Os indivíduos deveriam ser testados em segredo desde pequenos, através de uma série de situações onde seja tentado a se corromper, levado a perder tudo, desde os bens materiais até mesmo a honra pessoal caso não se corrompa e, somente se tiver resistido a tudo isso, e aceito sofrer perdas por se manter justo é que deve ser escolhido como governante. Platão conclui que o indivíduo que resista a tudo isso e se mantenha fiel à justiça, não pode ser outro senão o filósofo.
Sobre a justiça considera ser possível evitar que os indivíduos se tornem corruptos, tendo como base um sistema educacional valorizado pela sociedade e estruturado a partir da música e através da proibição de narrativas que corrompem, como por exemplo as narrativas religiosas. Platão acredita que a religião corrompe, ao apresentar deuses que castigam, permitem a injustiça, iludem o homem e servem de base para o conformismo, por isso proíbe o culto aos deuses. A educação, portanto, teria êxito ao educar o indivíduo de modo a evitar que o mesmo seja corrupto tendo por base a censura da música, da religião e das narrativas inverídicas. Ao invés dessas inverdades, Platão sugere sim um culto, uma metafísica, mas voltada somente para o homem e para a Terra. Dessa forma seria possível educar cidadãos que dificilmente irão se corromper.
Sobre a saúde pública, defende que a medicina não deve, de forma alguma, ser levada a todos. Daí a necessidade de uma educação que funcione e que seja valorizada como principal pilar da sociedade, pois Platão afirma que uma pessoa decentemente educada saberia se alimentar corretamente, evitando a gula, os excessos e o ócio do corpo. Um sujeito assim educado dificilmente adoeceria e isso levaria os hospitais públicos a se esvaziarem. Contudo, um indivíduo que não siga os preceitos da educação que lhe foi fornecida, ou seja, que se entregue à gula e ao ócio do corpo, não terá a medicina a seu dispor, pois escolheu de sã consciência o caminho da doença e da morte.
Assim, Platão diz que se os hospitais estão cheios e os tribunais lotados é porque a educação não funciona.
Sua obra é vastíssima e muitos pontos polêmicos são sugeridos, como o arranjo de casamento entre os homens tidos como superiores somente com as mulheres superiores, a poligamia, a permissão para que o governante minta para o bem da sociedade, a não existência da propriedade privada entre os guardiões e governante da cidade, e a hierarquia necessária para se estruturar a sociedade, onde os filósofos ocupam por mérito próprio o posto de governante.
Sua obra foi fundamental para se formar a idéia de utopia em diversos pensadores posteriores, todos influenciados por seu legado. Tentou algumas vezes implantar seu modelo de República em Siracusa, mas não obteve sucesso.
De fato, é difícil imaginar que algo assim possa ser de fato implantado em uma sociedade como o Brasil, mas a leitura de seu livro é fundamental para entender a origem de diversos problemas sociais atuais, além de enaltecer a questão da importância da educação na formação de uma sociedade que pretende ser perfeita.
Além de tudo, A República, é uma obra que lembra o homem dos reais motivos que o faz viver em sociedade, e nos aponta de forma fabulosa os momentos nos quais tudo se perde, e a sociedade sucumbe à injustiça e corrupção.
Pintura: Rafael, A escola de Atenas.